Já contei para vocês que ao lado do meu prédio estão (ou deveriam estar) construindo um prédio, né? Pois a movimentação começou em março ou abril, não lembro exatamente, e até agora não subiram uma polegada de prédio. Nem sequer fincaram uma sapata para o alicerce! Até agora eles só fizeram revolver o terreno fazendo um barulho insuportável com aquela broca gigante e tentaram (sem lograr êxito) drenar uma água que brota do chão a cada buraco aberto. (Minha faxineira é que sabe: “Dona Ana Paula, eles abrem buraco, sai uma água e eles fecham o buraco! Só fazem isso!)
Claro que para fazer esta buraqueira e barulhada toda tem um bando de homem. Desocupados a maior parte do tempo, diga-se de passagem. Eles rodam de um lado para o outro sem fazer nada, batem papo, jogam cartas... Eles chegam às 6h da manhã e todos estão sempre alegres e felizes confraternizando. Sabe como é confraternização de homem, né? Ao berros e cheias de xingamentos e palavrões. Às sete as máquinas já estão ligadas. É um despertar maravilhoso. Você nem imagina...
Mas a barulheira e a “alegria” matinal são contornáveis com tampões de ouvido. O pior é presenciar discussões e brigas (porradas mesmo!). Apavorante.
Ontem pela manhã um senhor grisalho, bem vestido, de sapato, calça e camisa social, ignorou o lamaçal e avançou até a casinhola do mestre de obras, encarregado ou coisa que o valha, suponho, e pôs-se a gritar com ele. Devia ser algum engenheiro (no mínimo descuidado porque não usava um EPI). Ele berrava que tinha recebido uma carta desaforada do patrão do cara alvo da sua ira e exigia que ele trabalhasse direito. Os gritos eram tantos, tão altos e na frente de tanta gente que pensei (e eu no lugar dele teria feito isso) que o encarregado ia partir para cima do reclamão desaforado e arrogante. Eles não partiram para as vias de fato, mas hoje teve briga.
Era mais ou menos o mesmo horário (umas 8h) e quando ouvi homem desesperado gritando “Para! Para, por favor! Para pelo amor de Deus!”. Já teve a infeliz experiência de ouvir alguém pedindo para parar de apanhar? Se não teve, que continue assim. Se já teve, sabe do que eu estou falando. É angustiante. Dá medo, vontade ajudar, sensação de impotência, injustiça, pavor. A briga aconteceu dentro do vestiário deles – uns contêineres estrategicamente instalados com as entradas viradas para a parede: o ar não circula, mas a gente não vê o que se passa lá dentro. Só consegui ver o cara que batia sendo puxado e ouvi seus berros reclamando que o outro fazia fofoca e coisa e tal. Um operário foi lá na casinhola do encarregado, mestre de obras, enfim, do responsável pelo botequim, e comentou da briga, mas a pessoa que estava lá dentro nem se mexeu, nem se levantou para ver quem estava fazendo arruaça debaixo do seu nariz.
Duas coisas me chocaram nestes episódios: fiquei pensando que se uma obra aqui, em plo Rio de Janeiro, capital, as coisas são assim, na base do grito e da porrada, imagina como não são lá no meio do mato, lá onde não tem vizinho? Mundo cão total. Outra coisa que pensei é se existe um responsável por esta obra... Se tiver, deve ser como a professora do Snoopy que não aparece (aquela que só fala “bobó bobó...”). Primeiro foi agredido verbalmente pelo seu superior, depois nem tomou conhecimento do que houve entre seus operários. Quanta omissão para uma pessoa só!
E eu sigo torcendo para que esta obra acabe ou desistam dela, o que vier antes da próxima briga.
Dura realidade
A pessoa que vem de Paris deveria ter um período de adapatação à realidade destes tristes trópicos, como os mergulhadores de águas profundas que não podem voltar à superfície rápido por causa da pressão.
Meu maior trauma tem sido o transporte público. Como lá só andei de metrô, RER e ônibus e vi que tudo funciona, tem horário, é integrado e barato, voltar ao metrô lotado e sem ar-condicionado, à Supervia da chicotada, do trem fantasma e do descarrilamento e à frota de ônibus (e ao asfalto!) carioca é de chorar no cantinho.
Para endurecer (sem perder a ternuna jamais!) ainda mais minha volta ao mundo real, olha que bichinho bonitinho eu tenho embaixo da minha janela.