Minhas férias terminaram ontem, mas só hoje voltei para o escritório e quando abri meus emails tive a desagradável surpresa de descobrir que o pai de uma amiga morreu de infarto no dia 4/10. Imediatamente liguei para ela (que era para ser mais uma fornecedora da firma com quem eu lido, mas virou amiga) e foi só dizer algo como “vi seu email só agora; desculpa não ter ligado antes” e minha voz embargou, ela chorou e ficamos as duas, patéticas, falando baixinho, fungando no telefone, tentando segurar a emoção no “ambiente corporativo”. Pedi mil desculpas por ter ligado para consolá-la e ter chorado e ter feito ela chorar. Foi lembrando da sua dor, da insuportável, incalculável, incompreensível dor que ela está sentindo que me lembrei da animação Father and Daughter que assisti na mostra comemorativa do Anima Mundi este ano. Singela e emocionante. Para minha amiga que perdeu o pai, para mim, para minha irmã, para outras amigas órfãs, este vídeo, com carinho.
(P.S.: Acho linda a música. Repara como ela muda ao longo do filme, com a passagem do tempo. Repara também na cena da despedida. Chooooooro.
P.S.2: Um dia, eu ainda vou contar para você a história The heart and the bottle. Um dia.)
Dilma 13
Nestas eleições, senti falta de Ursulão. Ele nunca reclamou da obrigatoriedade do voto e sempre sabia em quem votar e porquê. Ele sabia tanto em quem votar que tinha sempre mais de um candidato, pelo menos para vereador e deputado que tem mais “oferta”, digamos. Aí, nas eleições para deputado e vereador, ele anotava em um papelzinho o número do candidato em quem a gente devia votar. Podia ser o dele, mas geralmente era outro. Eu sacaneava: “Isso é voto de cabresto”. Ele ficava puto e dizia que era só uma sugestão, se não quisesse votar que não votasse e blábláblá.
A gente ainda ia junto para zona (eleitoral, eu digo). Votávamos na mesma escola. Era quase um programa em família porque minha mãe também votava lá. Uma vez, a seção da minha mãe era no último andar e não tinha elevador e Vagareza já estava com seus joelhos comprometidos de artrite-artorse-reumatismo e não pôde votar. Ele achou um absurdo não ter uma opção para quem não pudesse subir escadas. Vagareza achou ótimo porque daí em diante não foi mais votar. Pela idade, ela já estava liberada do voto. Ele também, mas votava ainda. E teria votado em 3/10 e votaria agora dia 31. Votaria em Dilma, com muito prazer. Por Ursulão e pelo Brasil, eu também voto.
Olha as minhas meninas As minhas meninas Pra onde é que elas vão Se já saem sozinhas As notas da minha canção Vão as minhas meninas Levando destinos Tão iluminados de sim Passam por mim E embaraçam as linhas Da minha mão
As meninas são minhas Só minhas na minha ilusão Na canção cristalina Da mina da imaginação Pode o tempo Marcar seus caminhos Nas faces Com as linhas Das noites de não E a solidão Maltratar as meninas As minhas não
As meninas são minhas Só minhas As minhas meninas Do meu coração
Dez na maneira e no tom Você é o cheiro bom Da madeira do meu violão Você é a festa da Penha, A feira de Sao Cristovão, É a Pedra do Sal Você é a Intrépida Trupe A Lona de Guadalupe Você é o Leme e o Pontal
Nunca me deixa na mão Você é a canção que consigo Escrever afinal Você é o Buraco Quente A Casa da Mae Joana É a Vila Isabel, Você é o Lago do Estácio, Curva de Copacabana Tudo que o Rio me deu!
Pé do meu samba Chão do meu terreiro Mão do meu carinho Glória em meu Oteiro Tudo para o coração De um brasileiro.
**** Ano passado, nesta data, eu enterrei meu pai. Enquanto ia pro cemitério no banco de trás do carro do meu irmão, ia cantarolando mentalmente esta música. Não sei porque. Até então, ela não tinha nenhum significado especial para mim, nenhuma preferência, apesar de já achá-la linda. Agora, ela é uma lembrança e uma homenagem a meu pai, que era sem dúvida o "chão do meu terreiro".
Histórias de Ursulão Minha irmã levou o carro no eletricista e ele:
– Você é filha do “Seu” Osíris*, né? – Não, sou filha do Ursulão. – Era dele mesmo que eu estava falando. É que eu nunca guardei o nome dele e o chamava de Osíris e ele atendia.
* Nome de um primo meu que apresentou meu pai ao eletricista.
O que teria sido Dia 4 de março teria sido aniversário de Ursulão. Ele teria feito 72 anos. Eu teria chegado de viagem, como cheguei, e encontrado a varanda – que ele ampliou pra receber melhor os eternos convidados que a gente tinha em casa – cheia, todos os primos e tias lá. Cachorro-quente e refrigerante na mesa. Uns pastéis porque ele adorava. O almoço, na certa, teria sido Angu à Baiana. O telefone teria tocado algumas vezes. Eram os tios e primos que não vieram e os amigos distantes para dar os parabéns. Mas quando eu cheguei havia até um certo movimento na varanda: minha mãe, irmã, irmão e Lara conversavam. Não tocamos na data e pouco tempo depois de eu ter chegado, eles foram embora. Uma amiga tinha dito que pior que Natal, Ano Novo, Páscoa, é o aniversário da pessoa que morreu porque não há mais o que se comemorar. Ela tem sua razão.
*** Tem gente que ao ouvir alguém falar bem de quem morreu (mal)diz: "Depois que morreu, virou santo". Né, não. É que infelizmente a gente tem a péssima mania de só enxergar os defeitos das pessoas e se esquece de reparar em tudo de bom que ela faz e representa. Aí, quando a pessoa nos falta, falta também o cuidado, o respeito e a admiração que a pessoa tinha pela gente e que se expressava em atitudes corriqueiras e nada, nada grandiosas.
*** Ele era velho e era um mestre. Eu era jovem e era discípula. Ele mestreou e ela aprendeu. E dessa escola ninguém ouviu falar.
Ele se foi sem saber que era um mestre. Ela ficou, sem saber que foi discípula. Só muito depois, compreendeu E já era tarde.
(fragmento de A fala de Aninha (várias...), de Cora Coralina
Feliz 2008 E não que 2007 acabou?!?!?! Graças a Deus! Tava demorando! Pela primeira vez em muito tempo, eu estava animada para um Reveillon. Era como se, ao virar o ano, tudo de ruim de 2007 acabasse e a vida voltasse a ser como antes, com Ursulão me dando histórias pra este blog. Infelizmente não foi assim, mas só de ver que 2007 ficou pra trás, que eu fui mais forte que ele, que eu, apesar de muito machucada, venci, foi uma felicidade.
Pensei que seriam mais sofridas as primeiras festas de final de ano sem meu pai. Minha mãe chorou muito, mas, de maneira geral, acho que suportou bem. Não é nas comemorações que a gente sente mais falta de uma pessoa. É no dia-a-dia que a ausência se faz “presente”, pode-se dizer. O café da manhã que eu faço e tomo sozinha. O portão que permanece fechado. O carro que eu tiro da garagem, vejo a água e o óleo (na verdade, ainda não me acostumei a vigiar estes itens). O pára-brisas que está sempre sujo. Os Cds do Chico que nunca mais tocaram. Os DVDs do Chaplin que estão guardados. Um filme que eu vejo ou uma reportagem que leio e não tenho com quem comentar. O livro do Niemeyer que eu comprei pra mim, mas que seria um ótimo presente de Natal pro meu pai. A TV que fica ligada pro sofá e pras paredes nos ilude e nos faz pensar que tem mais alguém na sala. As compras que eu tenho que fazer. Ah, essas malditas compras! Coisa mais chata ir ao mercado. E meu pai ia quase todo dia, então, a gente nem notava total falta de planejamento da minha mãe que deixa até faltar papel higiênico. O cotidiano é pior que muito Natal.